sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Principezinho



"(...) E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. (...)"



Antoine de Saint Exuperry

2 comentários:

  1. A moral dessa história é muito boa para mudar a maneira de pensar dos (filhos dos) neandertais, e todos os que são capazes de abandonar ou fazer mal a um bicho tão amigo como um cão.
    A verdade é que muita gente compra um cão por ser moda, ou por precisar de um guarda em casa. Mas muitos optam por abandonar na época de férias, ou quando a moda passa, porque nunca fizeram um esforço de passear ou criar laços.

    Se todos os donos fossem amigos dos cães esse problema nunca existiria.

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  2. É verdade, infelizmente os animais e principalmente os cães, ainda são alvo de interesses meramente pessoais, porque no fundo no fundo as pessoas, não gostam verdadeiramente deles, ainda estão agarradas á ideia de que o cão é para guardar a casa...puffff!!! Se as leis fossem outras, a história talvez tivesse outro final.

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